Há 50 anos: o ''Pacto das Catacumbas'' para uma Igreja serva
e pobre*
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Catacumbas de Domitila - Ágape |
No dia 16 de novembro de 1965, há 50 anos, poucos dias antes
do encerramento do Vaticano II, cerca de 40 padres conciliares celebraram uma
Eucaristia nas Catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito
de Jesus. Depois dessa celebração, assinaram o "Pacto das
Catacumbas".
O documento é um desafio aos "irmãos no
Episcopado" a levar adiante uma "vida de pobreza", uma Igreja
"serva e pobre", como sugerira o Papa João XXIII.
Os signatários — entre eles muitos brasileiros e
latino-americanos, embora muitos outros aderiram ao pacto mais tarde —
comprometiam-se a viver em pobreza, a renunciar a todos os símbolos ou
privilégios do poder e a pôr os pobres no centro do seu ministério pastoral. O
texto teve uma forte influência sobre a Teologia da Libertação, que surgiria
nos anos seguintes.
Um dos signatários e propositores do pacto foi Dom Hélder
Câmara.
Eis o texto.
Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre
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Catacumbas de Domitila - Ágape |
Nós, Bispos,
reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa
vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa
iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção;
unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e
a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes
de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração,
diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos
fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas
também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça,
comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no
que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que
daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente
no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa
(devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; Act 3,6.
Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc.,
em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da
diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e
material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do
seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e
apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e
títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência,
Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt
20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos
aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma
preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou
aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de
quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por
qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas
como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt
6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário do nosso tempo, reflexão,
coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos
laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique
as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos,
diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os
operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt
11,4s; Act 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.
9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas
relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência"
em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e
todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos
competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis
pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática
as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade
e ao desenvolvimento harmónico e total do homem todo em todos os homens, e, por
aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos
filhos de Deus. Cf. Act. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua
realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em
estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade -
comprometemo-nos:
·
a
participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos
episcopados das nações pobres;
·
a
requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o
Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adopção de estruturas
económicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada
vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem da sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade
pastoral, a nossa vida com os nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e
leigos, para que o nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
·
esforçar-nos-emos
para "revisar nossa vida" com eles;
·
suscitaremos
colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns
chefes segundo o mundo;
·
procuraremos
ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
·
mostrar-nos-emos
abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; Act 6,1-7; 1Tim
3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses respectivas,
daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes
ajudar-nos pela sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.
* O Pacto das Catacumbas foi assinado por 42
Bispos de 25 países, representando os cinco continentes. Os 5 bispos
brasileiros signatários do documento foram Dom João Batista da Mota e
Albuquerque, Arcebispo de Vitória (ES), Dom Francisco Mesquita Filho, Bispo de
Afogados da Ingazeira (PE), Dom José Alberto Lopes de Castro Pinto, Bispo
Auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Henrique Hector Trindade OFM,
Bispo de Bonfim, (BA) e Dom António Batista Fragoso, Bispo de Crateús (CE).
Posteriormente, o Pacto foi assumido por cerca de 500 dos 2.500 bispos do
Concílio.
Um dos proponentes do Pacto, foi Dom
Hélder Câmara, fundador da CNBB e sempre comprometido com as causas sociais no
Brasil.
(texto retirado de: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515573-o-pacto-das-catacumbas-para-uma-igreja-serva-e-pobre)